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Somos muitos sendo um só

Muitas moram em mim. E são essas muitas que se unem em uma só a fim de escrever quinzenalmente para o jornal A TARDE. Às vezes quem escreve é uma mulher de 87 anos, cuja experiência vivida deseja transmitir aos leitores; outras vezes é a mãe espiritual, que aproveita a ocasião para “puxar as orelhas” dos filhos; algumas poucas vezes é a “poetisa” que mora escondida e que só se expressa quando sente não mais suportar a dureza da vida; dias há que quem escreve é a mulher responsável e comprometida com um jornal, e que mesmo sem inspiração faz sua mente esforçar-se para que o prazo de entrega do artigo não expire

 

O artigo de hoje foi escrito pela iyalorixá que lutou, e luta, para que o trabalho de suas antecessoras não tenha sido em vão; para que o candomblé, religião professada por elas e por mim, não seja temido e sim respeitado. Entendendo que o respeito advém do entendimento, optei por escrever uma sequência de artigos que colaborem para um melhor entendimento do instinto religioso, o qual é inerente aos seres humanos, e como o candomblé lida com esta parcela da grandiosa, complexa e inalcançável natureza humana.

Nem o grande e importante avanço da ciência, para quem a comprovação de dados é fundamental, impediu ou diminuiu a necessidade que tem o homem de conexão com o misterioso mundo divino, que se acostumou a denominar de processo religioso. Muito se discute se uma corrente religiosa é seita ou religião, como se um simples termo pudesse definir um estado de ser. Isso só ocorre porque a humanidade ainda opta pela rivalidade, concorrendo com pessoas que pretendem a mesma coisa: comungar com o divino. Eu mesma, como humana que sou, quando sinto em alguém a tentativa de desvalorizar a religião que professo, esqueço-me que ela não precisa de defesa e termino por cair no jogo da rivalidade entre as religiões: um sentimento vaidoso me toma e afirmo que o candomblé é uma religião constitucional, composta de cosmogonia, dogmas, liturgia, rituais, blá, blá, blá… Esses termos são úteis, sim, quando o intuito é apresentar as diferentes formas que cada grupo encontra para manifestar sua relação com o mundo divino. É uma maneira didática de transmitir conhecimentos de modo que estes possam ser entendidos com uma maior facilidade.

 

É comum conceituar-se seita usando-se como critério a etimologia da palavra. Isso implica dizer que seita é um segmento, uma facção independente, de uma religião já organizada. Não creio estar o problema no fato de um grupo religioso ser uma seção de outro, mas, sim, no fato de um líder religioso, seja ele iyalorixá, padre, pastor, monge, etc., tentar neutralizar o livre pensar de seus liderados, além de excitar a rivalidade entre membros de crenças aparentemente diferentes da sua. Afinal, não existe “o meu deus” e, sim, a ideia de deus. Respeitar o pensar do outro talvez seja a principal característica de um verdadeiro religioso, pois esta é uma das formas de se estar conectado com o divino que existe em cada filho de Deus, consequentemente com Deus. Respeitar até o direito do grupo de pessoas que não acredita em Deus – os ateus, que de tanto preconceito sofrido, perceberam a necessidade de fundar uma associação – ATEA –, que busca diminuir o desconhecimento sobre esta forma de pensar.

 

De maneira variada, as religiões ou seitas encontram a forma própria de exercitar sua crença. É, entretanto, possível perceber elementos comuns a todas elas, que são, exatamente, a cosmogonia, a liturgia… Nesses elementos estão guardados os pensamentos subjetivos de cada grupo religioso, os quais independem de comprovação científica e servem para estruturar o ser humano consigo e com a comunidade em que vive. Somos muitos em um só. Serei professora na série de artigos que se seguirá, tentando transmitir aos leitores como os adeptos do candomblé entendem o surgimento do cosmo (cosmogonia); realizam sua liturgia (rituais públicos); aceitam seus dogmas (verdades inquestionáveis de um grupo) e praticam seus rituais (cerimônias realizadas em momentos específicos).

 

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente ela publica artigos em A TARDE, sempre às quartas-feiras.

 

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